Não me apetece escrever... mas a bem da verdade não me apetece fazer nada... sinto que me tornei mais africano hoje. Sim, estou a torcer por uma vitória do Gana contra o Brazil, mas não por isso que me sinto mais africano. Passo a descrever:
Andava com uma constipação chata, seguida de umas boas sessões de sinusite que me andavam a por de rastos... depois veio a febre vespertina e por fim as dores nas articulações. Esperei três dias e a febre e as dores passaram. O fantasma da malária pairou sobre mim mas com o cessar da febre presumi que de malária não se tratava, uma gripezita ou qualquer ouro vírus manhoso que por cá anda a chatear. Mas no final da semana passada a febre voltou, e com ela vieram mais dores, como o trabalho apertou bastante e estávamos realmente com boas perspectivas de iniciar a laborar castanha não tinha tempo nem sequer para pensar em estar doente. A verdade é que trabalhar doente é alucinante. A dor de cabeça da sinusite dificulta a concentração, as dores no corpo provocam uma sensação de mal estar permanente, o nariz fungoso é acima de tudo irritante e a febre além de desconfortável faz a cabeça andar às voltas o que dá a impressão de estar bêbado sem a euforia e sem o prazer de ter bebido.... Enfim, as condições para preparar o inicio do processamento nesta ilha, onde falta tudo e onde tudo demora a chegar, eram no mínimo adversas. Por outro lado, após oito meses de trabalho, gostaria de voltar a casa com pelo menos um saco de amêndoa de caju para mostrar. Na sexta a previsão era para iniciar na segunda, no sábado passou para terça, domingo sabia já que dificilmente seria na quarta, hoje sei que nunca será antes da próxima semana. Por isso, após muitos telefonemas, arranjos e rearranjos com a confirmação que o início da laboração não seria comigo cá que decidi fazer o teste da gota espessa para detectar o plasmódio falciforme da malária... o teste rápido deu negativo, o que não foi um alívio, porque se não era malária... o que seria? Gripe? Tuberculose? Sida? Muitas foram as possibilidades aventadas, de facto amanhã farei o teste do HIV para certificar, mas a verdade é que o teste laboratorial (e fiável) identificou os famosos (por aqui são um sucesso) anéis dos ditos plasmódios... estava diagnosticado. Tenho malária! (o que retira as probabilidade de ter as outras todas, mas o teste do HIV já está mercado por isso amanhã volto ao hospital, maravilha)! Não é um ataque forte, principalmente atendendo ao tempo que já se passou desde os primeiros sintomas e ao estado debilitado em que o meu organismo se encontra (constipado, excesso de cigarros, stress em barda, ansiedade do regresso, cansaço físico acumulado e perda de peso por distúrbios intestinais anteriores). Estou a tomar Mephaquin, que me ataca o fígado e os rins, me dá uma má disposição ainda maior e sinto-me bastante mal, mas uma coisa vos garanto, já tive gripes bem piores, para não falar de ataques de sinusite bem mais desagradáveis. Para uma primeira experiência com os bichos mais letais de África, fiquei desapontado. Afinal, apesar de condicionado, é possível trabalhar com malária (um ataque moderado e da normal, não confundir com ataques fortes ou com a cerebral). As dores não são agradáveis, mas no limite são bastante sofríveis, melhores que as dores de dentes que cá tive (retracção das gengivas disse o dentista) e das cólicas provocadas pelos desarranjos intestinais, essas sim dores de intensidade alta e duradoura, em que a hora de tomar drogas era bem vindo, em vez do mephaquim que tomo com a mesma vontade com que os putos das bandas desenhadas tomam o famoso e temido óleo de rícino.
Não vos levo caju, mas se quiserem mando guardar uns quantos plasmódios (gosto desta palavra) para vos dar! E que o Gana ganhe amanhã!
0 Comentários:
Enviar um comentário
<< Página inicial